Friday, October 21, 2005

Gus Van Santa paciência para ver "Last Days" até ao fim (vai morrer longe, anão iconoclasta

No Royale, Gus Van Sant vai de herói a vilão no espaço de um post.

Vivia na corda-bamba do cepticismo desde que tinha perdido o tempo mais inútil da minha vida com o "Psycho" e o "Even cowgirls get the blues". Eram os pesos negativos de uma balança que tinha contraponto na excelência de "My Own Private Idaho" e "Elephant" (dois marcos do cinema independente e mantenho com o primeiro uma relação que me leva a comover até quando vejo os extras). O "Bom Rebelde" seria sempre o Luke Skywalker na equação, o equilibrio. Os destabilizadores seriam insignificâncias que nem sequer vi. Certo. Vamos a isto. Hoje é decisivo. Amor ou ódio. Conversão ou total rejeição. Bem... "Last Days" pertubou-me tanto como "Irreversível", mas pelas piores razões. É um daqueles objectos absolutamente inenarráveis que só tornam Gus Van Sant numa figura ainda mais odiável, tal é a leviendade com que arruina por completo coisas sagradas.
Sim, porque colocar Norman Bates a masturbar-se enquanto espreitava o rabo de Anne Heche (quando isso não acontecia no original de Hitchcock) já era daquelas coisas que me tirava o sono. Fazer da figura que praticamente mudou o rumo musical da década de 90 uma caricatura comparável ao Beavis (após demasiado consumo de açucar) é simplesmente uma ofensa de quem se dá a estes luxos só porque o pode. sim, Gus Van Sant filma por meia dúzia de tostões. É "hip" e tem amigos que o acompanham como mecenas. Kim Gordon surge num papel pior que alguns discos da série SYR. GVS é a partir de hoje uma das pessoas mais perigosas no mundo, tal é a facilidade com que pode remexer uma entidade sagrada e servi-la em menu indie imersa em tiques descabidos e um disfarce que tudo facilita. Gus Van Sant é arty, reúne colaboradores brilhantes no que toca a fazer cinema (sim, Last Days é excelente na fotografia e detalhes técnicos) e tem aquela pinta de iluminado. Last Days é bom cinema, mas um objecto incompreensível no seu motivo.
Agora que Kurt Cobain e Hitchcock já deram voltas no caixão, porque não fazer de Rosebud um vibrador, de Joana D'Arc uma prostituta psicótica e de Carlos Focauld um mercenário toxicodependente num biopic fantasiosamente dado a delirios gay? Sim, Gus, aproveita as cinzas aos Alice In Chains, Elliott Smith, Jeff Buckley. Mete-os a todos a andar aos circulos nessa américa das amarguras boémias que tanto focas. Desde que tenhas alguém competente e um lobby indie a apoiar-te, isso há-de correr às mil maravilhas.

Wednesday, October 05, 2005

My Own Private Right to be amusing

Em boa companhia finalmente descobri porque o "My Own Private Idaho" é tão eficiente enquanto filme gay. Existe uma cena de sexo (filmadas em imagens petrificadas) em que Keanu Reeves surge nu ao lado de quem contracena com ele. No meio de todas aquelas formas redondas fiquei sem saber a quem pertencia o melhor rabo. Creio que os dois eram bem apreciáveis. O método Gus Van Sant resulta.

Além disso, não há ninguém que filme nuvens como ele. "My Own Private Idaho" tem sequências inesquecíveis no que a nuvens diz respeito. Valia a pena compilar as sequência do céu a todos os seus filmes e reunir isso num video dos Sigur Ros ou Cocteau Twins. No meu funeral quero esse video a passar em loop.

Na verdade, sou tão estupidamente emotivo em relação a "My Own Private Idaho" que dei por mim a ficar sensibilizado com alguns dos seus complementos (os que constam do disco 2 da sua edição Criterion). Qualquer dia dou por mim a chorar baba e ranho nas trailers de filmes do Lasse Halstrom. Levei-me a andar de carrinhos de choque no dia em que isso acontecer, por favor.