Wednesday, August 10, 2005

Vai sonhando

Em vez da tradicional avalanche de disparates, opto neste post por confrontar dois pontos de vista em relação a "Os Sonhadores" de Bertolucci.

O de alguém bem mais entendido sobre a obra de Bertolluci, mas céptico relativamente às maravilhas da Criterion Collection:

Os Sonhadores será sempre um filme-fetiche, realizado por um homem que é para mim o cineasta (mal compreendido) da luxúria, Bernardo Bertolucci. Não esqueço a admirável recuperação do Acossado do Godard, no pregão "New York Herald Tribune". Ou, ainda Godard, a tentativa de bater a façanha do Louvre de Bande à Part. Ou mesmo o despique verbal entre Chaplin e Keaton, ou entre Clapton e Hendrix - fico-me sempre pelos segundos. Os diálogos contrastam, às vezes, com a cenografia "gratuita", é verdade. Mas são perturbantes as navalhadas no Maio de 68 e na guerra do Vietname, ou como uma declaração anti-guerra é um poema. Sobretudo porque acredito que muita gente viveu assim esses episódios históricos.

É um filme improvável. Veja-se as cenas da tentativa de suicídio ( Rosetta, dos irmãos belgas Dardenne, é contemporâneo deste filme e isso percebe-se bem nesta passagem) e da rua a entrar-lhes pela janela - já que eles se estavam nas tintas para a revolução. É quase impossível este filme, de tão narcísico (como disseste (em debate verbal havido anteriormente)), como era quase impossível O Último Tango em Paris . Mas Bertolucci filmou ambos. É cinema que se olha até à náusea, na ânsia da auto-referencialidade a roçar o pueril. Mas um cinema apaixonante e apaixonado, nem que seja por si. Os Sonhadores é assim. Não é assim também Tarnation , de Jonathan Caouette? Mas concedo, por fim, que, por ter tanta sacarose, acaba por fazer mal aos dentes. É que Bertolucci nunca estudou até ao fim a lição dos grandes, não deixando por isso de ser um deles.

A minha resposta:

Posso adiantar que eu concordo com quase tudo o que referes. Eu não conheço assim tão bem o Bertolucci p admirar essa auto-referencialidade. Mas se for por aí todas as sagas são grandes filmes. Aquelas colagens e referências à nova vaga e a outros tantos clássicos são pura sedução de cinéfilos. Ou estás dentro ou estás fora. Tu estás dentro, eu estou fora. Eu disse que "pode até" ser narcísista e não malhei nisso. O filme tem um início e fim extremamente deficientes. Em 15 minutos o trio une-se. Em 5 minutos o trio desfaz-se. Já o "Tango" também jogava com a intimidade súbita, pelo que sei e pouco me lembro. Este não me papa talvez porque é gráfico quando nem sequer precisa de o ser. Parece-me ser um filme que acena com demasiadas bandeiras e depois não tem muito para dar.

Além disso, o trio de actores revela-se aquém das suas capacidades. Michael Pitt mais parece um Leonardo Di Caprio dos anos pré-Titanic.(spoilers ahead) E alguém acredita que a protagonista era virgem?