Tuesday, June 14, 2005

Não pesco nada disto

Wes Anderson é autor feito. Quem ainda não acreditava que “Royal Tenenbaums” era uma obra-prima a curto prazo, tem em “The life aquatic with Steve Zissou” resposta à altura. Os dois são tão semelhantes e, ao mesmo tempo, tão distintos que compará-los será, por enquanto, um exercício de alto risco. A hipótese de “The life aquatic” ser a segunda parte de uma trilogia não é de todo descartável (sim, porque “Rushmore” era ligeiramente diferente do que se lhe seguiu) .

Os filmes de Wes Anderson comprovam a ideia da paixão como algo irracional. Dou por mim fascinado por tudo isto sem saber ao certo porquê. O bom humor flúi por dentro e raras vezes explode numa gargalhada. Tudo em “The Life Aquatic” é um imenso gag. O ataque visual – legendas, filmes dentro do filme, a arquitectura Monty Phyton – começa por desnortear e depois vai invertendo o seu papel e, aos poucos, acrescentando peças ao puzzle do gag indescritível. Tudo no universo Anderson tem imensa graça. Actualmente, é ele o melhor praticante da arte de fazer espalhafato de uma forma subtil. Por isso, “The life aquatic” (tal como “Royal Tenenbaums”) é uma bomba-relógio à espera de surtir o seu real impacto pela altura em que todas as subtilezas do seu non-sense são assimiladas.

Os detractores de Wes Anderson acusam-no de atirar a matéria pastosa à superfície e esperar que pegue. E muitas vezes não pega. Sim, Anderson nem sempre encontra forma de justificar as pontas que deixa soltas. Será tão improvável alguém apreciar esse desequilíbrio? Anderson filma espelhos humorísticos para quem não se leva muito a sério. Quando “Tenenbaums” deitava por terra qualquer seriedade (excepto os laços de sangue) associada à família como instituição, “The Life aquatic” equaciona a parentalidade através do delírio total moldado a partir de memórias de documentários protagonizados por Costeau e filmes de aventuras subaquáticas.

Além disso, não existe entre os autores no activo quem escolha melhor banda-sonora para os seus filmes. Sim, porque usar um clássico dos Stooges e logo depois soltar um trocadilho certeiro não é para todos. Os Sigur Rós por lá andam em momento determinante. Ah! E Bill Murray é o actor de mau feitio mais cool trajando um gorro vermelho. “The Life Aquatic” faz de 2005 um ano de boa pesca.

Thursday, June 09, 2005

O exterminador improvável

O exterminador permeável

“Naked Lunch” (este calor impede-me de verificar os nomes, por isso recomenda-se visita ao imdb) é um daqueles fracassos “o que poderia ter sido, mas não foi”. Procura Cronenberg com uma realização altamente personalizada (aqueles bonecos medonhos não poderiam pertencer a mais alguém) e através da fusão de universos reproduzir o impacto vanguardista da obra de Burroughs a partir da qual o filme é adaptado.

Fracassa, provavelmente porque teve de obedecer a um código de grande estúdio. “Naked Lunch” não se arrisca a ser assumidamente arty (caso o fosse, teríamos aquele que bem poderia ser o melhor Cronenberg), e o melhor que consegue é submeter a essência esquelética da obra de 1959 aos maneirismos e tiques da saga “Guerra das Estrelas” (quando o estúdio que pegou em “Naked” até é a 20th century fox). O filme acaba por ter direito a vilão (revelado numa cena risível) e um ritmo de aventura que nada tem a ver com o livro de culto.

Fica a ideia de que esta foi uma oportunidade perdida. Nem sequer sei se “Naked Lunch” arrecadou dinheiro suficiente para pagar as suas despesas, mas estou certo de que o público comum não terá cedido facilmente às reviravoltas e malabarismos tóxicos à Cronenberg. Lá estão os bonecos a servir de imagem de marca ao realizador. Os bonecos e um amontoado de sequências sofríveis suspensas por um fio condutor da espessura de uma teia de aranha. Sendo assim, prefiro “Spider” (o melhor dos últimos filmes do realizador canadiano) e aprovo tangencialmente “Naked Lunch” apenas porque as interpretações são irrepreensíveis.

Tuesday, June 07, 2005

Nem a revolução acontece nem a burguesia janta

“O charme discreto da burguesia” (creio ser este o título em português) é um tratado no que toca a conseguir levar a extremos a elasticidade de uma arte tão delicada quanto a sátira. Buñuel sabe como fazê-lo impiedosamente e com a classe de que os protagonistas padecem.

Ainda que procure ser tomado por trivial, o enquadramento visado pelo filme evidencia uma burguesia fragilizada por feridas expostas, podres e uma imensa susceptibilidade além da carapaça social.

Buñuel faz suspender um jantar – que nunca chega acontecer – entre pesadelos (as melhores sequências do filme) e prazeres ocultos, de forma a ridicularizar toda a formalidade e falta de objectividade por parte de uma burguesia perdida no vazio da estrada a que ninguém parece conhecer um fim.

Depende muito este “Charme” de mais alguns visionamentos e de uma contextualização mais apurada. Um comentário aprofundado fica para outra altura. Por agora, o Royale com Queijo recomenda.