Saturday, May 14, 2005

Sete palmos de Bonsai

Há alturas em que temos de engolir palavras passadas. Por puro capricho, não foram poucas as vezes que fiz trocadilhos com o nome do mestre Ozu, quando nem sequer conhecia um filme que fosse por ele realizado. Hoje assisti ao milagre que é “Tokyo Story” e sou um homem arrependido. Não faço ideia de como seriam as sagas familiares hoje em dia sem a herança de Ozu, mas tenho a certeza de que “Sete Palmos de Terra” (a série da HBO) e tantos outros muito lhe devem.

“Tokyo Story” não se dispõe a moralizar pelos números. Demora o seu tempo a chegar onde deseja e toda a morosidade é justificada. Trata o filme nipónico da viagem de um casal (já na terceira idade) a Tóquio para uma ronda de visitas aos filhos que um dia partiram do que os preparou para a vida. No entanto, o frenesim de uma cidade em pleno processo de rejuvenescimento (após a devastação provocada pela II Guerra) não permite a que os descendentes disponham do devido tempo para os pais. Um acontecimento vem a mudar tudo isso.

“Tokyo Story” trata sobretudo do posicionamento de gerações na Tóquio da época. Uma dinastia tripartida por planos interiores onde a profundidade (enquanto medida da dimensão) é filmada de uma forma igualmente tripartida. A obra de Ozu é um tratado de geometria. A distância sentimental entre os pais e filhos acanhados e (algo embaraçados) é infinitamente superior à distância física de quatro corpos ajoelhados no chão de madeira. Quando transposto para o exterior (fotografado com o primor que conhecemos à escola nipónica), “Tokyo Story” encurta a distância entre a passagem de esperançoso testemunho entre a avó e um neto filmado sob o céu aberto. A terceira idade parece ser o ramo tremido prestes a cair da árvore no Japão pós-nuclear. Ozu apela subtilmente aos laços familiares e tradição como elementos capazes de suster o ramo.

Nem sequer é necessário um discurso inserido a martelo para o resultado dramático de “Tokyo” ser estrondoso. Basta ao filme a sobriedade e a credibilidade das relações humanas.

Quando alcança metade da sua duração, “Tokyo Story” exala a tensão acumulada na cavaqueira entre três homens embriagados que, entre si, analisam o ponto de situação e o que para trás ficou. O filme trata disso mesmo: aquela altura em que importa reavaliar as relações familiares e arranjar a melhor forma de remendar os pontos fracturados. Para a partir dos cacos – pertencentes à instituição familiar desconexa ou à metrópole que ressuscita das cinzas – voltar a fazer um vaso.

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