Friday, May 27, 2005

O meu sabre é maior que o teu

Ontem fui até ao cinema ver o "Episódio III" com o meu cumpádi. O que se segue não é tanto uma apreciação, mas um relato das manifestações registadas entre ambos no pré e pós visionamento.

à ida: A nostalgia ameaçava dominar a noite. O ciclo chegaria finalmente ao fim. Consenso perante o facto do primeiro episódio ser uma merda, muito por culpa do Jar-Jar Binks (personagem Disney sob os efeitos do vidro em pó inalado em Tóquio) e um Anakin Skywalker traquina perdido em sorrisos forçados. A esperança de ver o melhor capítulo da nova trilogia.

no regresso: Eu confessava ainda ter fechado os olhos perto do final, o pendura admitia que desde miúdo que queria ser um Jedi. Nostálgicos. Saudades dos dias em que os personagens não eram virtuais demonstrações de virtuosismo e os cenários ainda tinham alguma espessura. O Jabba era um excelente vilão, mesmo com aquele aspecto grosseiro. Passados alguns minutos e já nos sentíamos uns cotas a falar dos novos conceitos explorados por Lucas nas prequelas dos tão amados capítulos originais. Pouco antes de chegar a casa, já se falava de amigos do ciclo e da publicidade mais idiota alguma vez vista antes de um filme: bubbles!!

Wednesday, May 25, 2005

Voando sobre um ninho de pugilistas

Sim, "Million dollar baby" é um bom filme. É sabido e mais que aquirido. Sim, Clint Eastwood e Morgan Freeman seriam mais que suficientes para atrair publico. Cumprem sem mácula e Eastwood atinge picos de dramatismo húmido pouco comuns à sua extensa carreira. Sim, Hillary Swank convence, apesar de sabermos que grande parte do seu desempenho tenha em vista a credibilidade e aquela coisa dourada que antecede a discursos sentidos. Era perseguida desde "Boys don't cry". Interpretar um travesti ou um pugilista determinado é ouro garantido.

E lá está. "Million dollar baby" suga-me durante duas horas, mas não dorme comigo hoje. Não me consigo render por completo a um filme que, apesar de impune em praticamente todos os aspectos afectos ao cinema, acaba por ser um tele-filme grandioso e sofisticado. É inegável, amigos. E depois, lá estão alinhados todos os condimentos esperados:

- Morgan Freeman no lugar de narrador.

- as sequências chaves para surgirem em trailers e nos excertos que são exibidos no certame das estatuetas: o grande diálogo pós-combate, o regresso do personagem interpretado por Freeman ao ringue, Hillary Swank débil

- o combate final tem uma aparência tão pretensiosa que eu esperava ver Russel Crowe a arbitrá-lo

Não, "Million dollar baby" pode até ser um excelente filme, mas hoje durmo na companhia de 3 euros e alguns cêntimos.

Wednesday, May 18, 2005

Tenho uma conspiração à porta

Vou ser curto.

"A intérprete" é um daqueles filmes que nos deixa no limiar do assento do cinema. Compreenda-se a intriga ou não (e eu andei à nora durante quase uma hora), o novo filme de Sidney Pollack é mirabolante no seu ritmo e sucessão frenética de situações, contra-situações, explosões e emoções.

Sim, nem sempre resulta o romance em falsete que une os protagonistas interpretados por Sean Penn e Nicole Kidman - provavelmente a melhor dupla de actores da actualidade -, mas lá estão os dois para aparar qualquer que seja a fraqueza apontada à intriga.

Apenas a conclusão soa um pouco forçada e menos credível. Mas já dizia Lemmy dos Motorhead:"The chase is better than the catch".

Sunday, May 15, 2005

Prime o gatilho, Sam, prime o gatilho.

Quem me conhece sabe que não suporto as tardes de domingo, mas hoje vivi a melhor dessas desde que fui passear ao jardim. Nem que seja por ter ido ao cinema ver “O assassínio de Richard Nixon”, desde já eleito pelo Royale como dos melhores do ano até à presente data. Trata o filme - realizado pelo debutante Niels Mueller – do afogamento de um homem e da América que quer levar consigo até ao fundo.

“O assassínio de Richard Nixon” é o novo “Taxi Driver”, daí que não será de todo inocente que o protagonista se chame Sam Bicke (quando Bickle era o apelido do personagem interpretado por De Niro). O que temos é a descida de um homem aos infernos da insatisfação perante um país mergulhado numa crise camuflada entre os sorrisos forçados de Richard Nixon. Muller consegue fazer de um protagonista paranóico alguém com que o público se consiga identificar. Houve alturas em que dei por mim a “torcer” por alguém que, apesar de lunático, é apenas vítima da América que o empurra para a mais temível das medida drásticas como última tentativa de salvação. Até nisso o filme se aproxima de “Taxi Driver”: o caminho rumo à salvação / redenção surge frequentemente no cinema de Scorcese.

Sean Penn continua a ser Sean Penn. Poucos seriam os actores de topo que se atreveriam a este papel, mas Penn já sobreviveu a tudo (a um casamento com Madonna inclusive). Por Penn ponho a mão no fogo e é actualmente o nome (a par de Edward Norton e Johnny Depp) que me leva a uma sala de cinema independentemente do que o filme possa parecer de antemão. Após “21 gramas” e “Mystic River”, Sean Penn consegue o hat-trick de prestações memoráveis que o colocam num plano infinitamente superior a quase todo o lote de talentos que acariciam a Academia com filmes esquecidos no espaço de um par de anos. Sean Penn é o homem.

Apesar de ter passado uns bons anos em laboratório, “O assassínio de Richard Nixon” adequa-se na perfeição como crítica à América dos dias de hoje, onde a ameaça pode também partir de dentro na altura em que um cidadão desesperado com a administração Bush se torna numa bomba-relógio.

Saturday, May 14, 2005

Sete palmos de Bonsai

Há alturas em que temos de engolir palavras passadas. Por puro capricho, não foram poucas as vezes que fiz trocadilhos com o nome do mestre Ozu, quando nem sequer conhecia um filme que fosse por ele realizado. Hoje assisti ao milagre que é “Tokyo Story” e sou um homem arrependido. Não faço ideia de como seriam as sagas familiares hoje em dia sem a herança de Ozu, mas tenho a certeza de que “Sete Palmos de Terra” (a série da HBO) e tantos outros muito lhe devem.

“Tokyo Story” não se dispõe a moralizar pelos números. Demora o seu tempo a chegar onde deseja e toda a morosidade é justificada. Trata o filme nipónico da viagem de um casal (já na terceira idade) a Tóquio para uma ronda de visitas aos filhos que um dia partiram do que os preparou para a vida. No entanto, o frenesim de uma cidade em pleno processo de rejuvenescimento (após a devastação provocada pela II Guerra) não permite a que os descendentes disponham do devido tempo para os pais. Um acontecimento vem a mudar tudo isso.

“Tokyo Story” trata sobretudo do posicionamento de gerações na Tóquio da época. Uma dinastia tripartida por planos interiores onde a profundidade (enquanto medida da dimensão) é filmada de uma forma igualmente tripartida. A obra de Ozu é um tratado de geometria. A distância sentimental entre os pais e filhos acanhados e (algo embaraçados) é infinitamente superior à distância física de quatro corpos ajoelhados no chão de madeira. Quando transposto para o exterior (fotografado com o primor que conhecemos à escola nipónica), “Tokyo Story” encurta a distância entre a passagem de esperançoso testemunho entre a avó e um neto filmado sob o céu aberto. A terceira idade parece ser o ramo tremido prestes a cair da árvore no Japão pós-nuclear. Ozu apela subtilmente aos laços familiares e tradição como elementos capazes de suster o ramo.

Nem sequer é necessário um discurso inserido a martelo para o resultado dramático de “Tokyo” ser estrondoso. Basta ao filme a sobriedade e a credibilidade das relações humanas.

Quando alcança metade da sua duração, “Tokyo Story” exala a tensão acumulada na cavaqueira entre três homens embriagados que, entre si, analisam o ponto de situação e o que para trás ficou. O filme trata disso mesmo: aquela altura em que importa reavaliar as relações familiares e arranjar a melhor forma de remendar os pontos fracturados. Para a partir dos cacos – pertencentes à instituição familiar desconexa ou à metrópole que ressuscita das cinzas – voltar a fazer um vaso.

Saturday, May 07, 2005

White trash, two nipples and an earthquake

“Short cuts” (1993) desiludiu-me, mas fez redobrar a admiração que nutro por Robert Altman como um excelente director de actores. Ainda que o viesse a descobrir por ordem inversa à cronológica, “Short cuts” figura ao lado de desfiles de brilhantes interpretações como “Happiness” (Todd Solondz), “Boogie Nights” e “Magnolia” (ambos realizados por P.T. Anderson). Num “cast” em que mais de meia dúzia de intérpretes têm direito de antena equivalente, apenas Andie Macdowell parece tropeçar num tom demasiadamente dramático. Por lá anda um Tom Waits competente e delicioso para fãs.

“Short cuts” é mosaico de uma Califórnia à beira de um ataque de nervos, retrato épico de um face white trash oculta. A estrutura é a das vidas que se cruzam e dos episódios que se sucedem. Porém, exigia-se a Robert Altman um maior fôlego para que o filme sobrevivesse a pouco mais de três horas (!!) sem bocejos. Não o consegue, de facto. Não chega a ser hilariante ao ponto de manter os sedentos de humor sob hipnose, tal como não mantém os níveis de interesse de algumas relações expostas. “Short cuts” é graciosamente desequilibrado e parece consciente disso. É feito de altos e baixos, tal como a vida que procura encerrar na sua duração. Intenso / descontraído, agridoce, optimista / pessimista. Diversifica-se em opostos para desse modo abranger toda a alma suburbana, mas morre na praia assim que perde o fôlego nos seus diálogos.

Sem sequer me arriscar a comparações no que toca a qualidade, posso adiantar que “Short cuts” habita nos antípodas de “Magnolia”. As semelhanças são de tal forma evidentes que, a partir da terceira hora, esperava que um sapo aterrasse a qualquer momento na cabeça de Robert Downey Jr.. Julianne Moore que no filme de Anderson assumia o papel da neurótica arrependida aqui habilita-se a uma cena de nudez que cai no filme de para-quedas. Ficamos a saber que a actriz é ruiva natural.

Thursday, May 05, 2005

Tarde sem rosto

Aproveitei o feriado espigueiro para pôr a cinefilia em dia. Quis o acaso que ambos os filmes alinhados tratassem de coisas sem rosto (monstrinhos e vítimas de um esteticista sem escrúpulos) e pertencessem a dois anos consecutivos respectivamente. Fica a ideia para um futuro double feature a ser ainda mais apreciado (hoje estava um pouco estafado).

“Fiend without a face”

Série-B com todos. “Fiend without a face” é poderosamente genuíno e generosa amostra das potencialidades de um filme de orçamento reduzido. A paranóia desta vez recai sobre a radioactividade - responsável pela existência de uma força invisível que suga o cérebro e a espinha dorsal às pessoas da pequena vila isolada na fronteira entre o Canadá e EUA. Blame Canada, pois claro.

Enquanto a ameaça faz as suas primeiras vítimas, vai ganhando forma o romance da ordem entre o militar e a sonsa que lá está para gritar ou surgir coberta apenas por uma toalha à ordem do realizar Arthur Crabtree. Tão improvável quanto uma relação que vai de tensão a tesão no espaço de 3 diálogos, é a aparência dos bichinhos que ganham vida e fome assim que a actividade radioactividade dispara (para fazer com que avião melhor sondasse território russo).

Os últimos vinte minutos (reservados ao ataque dos bichinhos formados por cérebro, antenas e espinha dorsal) são de antologia no que toca a série-b clássico. Felizmente, a bala supera a força da radioactividade e os protagonistas conseguem matar umas quantas criaturas enquanto as munições duram (ao bom estilo americano de quem defende o forte). É um festim como há muito tempo eu não via. Os movimentos dos pequenos bichos são bem mais credíveis do que esperava de um filme deste limitado calibre. “Fiend without a face” é série-b de luxo no que diz respeito a filmes de receio atómico.

“Eyes without a face”

Do terror desmiolado passo ao terror psicológico De uma forma que não conheço habitualmente, a produção franco-italiana consegue chocar-me ao ponto de olhar de lado para o ecrã. Há algo de implacavelmente macabro e doentio em “Eyes without face” – conto de um esteticista louco que sequestra mulheres às ruas de Paris para lhes roubar o rosto e aplicá-lo ao da sua filha que ficou com o seu desfigurado num acidente de carro.

“Eyes without a face” consegue reunir em hora e meia um par de vilões temíveis e o (des)encanto de “Eduardo Mãos de Tesoura” na personagem da vítima sem rosto. Até certo ponto, é precursor de “Massacre no Texas” pela forma como apresenta a família que atrai a presa até ao matadouro para dela fazer cobaia a uma necessidade macabra. Ainda assim, preferia o bisturi do Doutor Genéssier à moto-serra do Leatherface.

“Eyes without a face” consegue ser arty mesmo quando faz derramar sangue. Consegue ser perturbante sem nunca ser banal. Carismático mesmo que repugnante.