Wednesday, April 27, 2005

Hotel Ruanda

Ainda na ressaca do 25 de Abril, juntei-me a meia-pandilha para ver "Hotel Ruanda". O retrato de uma revolução não podia vir mais a calhar no dia de ontem. "Hotel Ruanda" cometeu a proeza de a ninguém deixar indiferente e todos envolver num cenário dramático que, à custa de um Don Cheadle incrível, torna credíveis os acontecimentos passados no Ruanda.

O tour-de-force protagonizado por Don Cheadle (Denzel quem?) é permanentemente intenso e suficientemente variado nas situações que ensaia. Recorre a duas ou três armadilhas da velha escola (crianças lavadas em lágrimas e por aí), mas sempre por justa causa. Por falta de golpe de génio - que fizesse o seu argumento brilhar entre os filmes de carácter político - "Hotel Ruanda" fica aquém do Olimpo de obras obrigatórias. O drama familiar convence, mas mói.

Monday, April 25, 2005

1ª Meia-Maratona Criterion

Durante o fim-de-semana, partilhei com grande amigo meu valente empreitada de cinefilia. O formato era simples: um monte de filmes inseridos numa tômbola e dois dedos que, ao pegaram ao calhas num papelinho, ditavam o cartaz. A única regra era: filme já visto por ambos não passa. Ainda assim, “King of kings” foi rejeitado por unanimidade. 7 filmes (uma curta metragem e metade de uma longa-metragem somam o sétimo). Eis impressões vagas do que se passou durante o certame.

Sábado

“Yojimbo”

O percurso começou no Japão dos Samurais. “Yojimbo” é Kurosawa clássico. Toshiro Mifune imerso no personagem. Um Frankenstein japonês e a sensação de que este tinha sido o melhor início possível.

“Band of outsiders”

Ditou a tômbola que rumássemos logo de seguida para Paris, num voo fretado por alguém que gentilmente deixou que o seu Criterion fosse estreado por mão alheia. Tive assim a oportunidade de assistir a um filme que ainda não tinha visto (quando as hipóteses disso acontecer eram de 7%). “Band” é filme de golpada que chega só porque parece inevitável. Retrato de trio amoroso pouco convencional. Um festim de cinema e diálogos como a muito eu não via. Odile (Anna Karina) conquistou os dois presentes em pouco tempo. A dança a três é de antologia, como se sabe.

“La ricotta”

Por capricho de horários, um sorteado “Mamma Roma” deu lugar à curta-metragem irmã “La ricotta”. Fiquei ainda mais convencido de que o teledisco de “Losing my religion” é quase decalque das sequências da crucificação de Cristo. Orson Welles faz uma perninha e um cão que ladra arranca-me a gargalhado do dia.

O companheiro mostra-se satisfeito e com fome de mais.

Domingo

“Mamma Roma”

Quem tem Pasolini, vai a Roma. “Mamma Roma” ganha e muito com um segundo visionamento. Toca-me como nenhum outro filme no festival e prometo-me a voltar a ele em breve. A forma como o Pasolini filma a prostituição torna obsoletas as restantes tentativas. “Avassalador.”

“I am curious – Yellow”

A versão amarela já conta com texto aprofundado nesta casa. Por isso, não me vou adiantar. Renovei a certeza de que este é um filme de propaganda branca camuflado de erótico. Consegue ser erótico, sim. Mas não há clímax que se aguente a quase 60 minutos de debate socialista e entrevistas sobre existência ou não de classes na Suécia. Só muito dificilmente a ele voltarei. O camarada do lado revela curiosidade em relação à variante azul.

“Chasing Amy”

O filme que semeou alguma discórdia. Admiro o talento que Kevin Smith exibe na escrita, mas “Amy” patina nos estereótipos e cenas altamente embaraçosas (Ben Affleck chora por duas ou três vezes, para terem uma ideia). O triângulo amoroso aguenta-se à custa de excelentes diálogos, enquanto que a banda-sonora parece mais datada que um disco dos Men at Work. O vizinho acha que o “filme se enquadra apenas a uma tarde de domingo”. Eu creio que é muito mais que isso: “Chasing Amy” é comédia juvenil inteligente e passerelle de deixas memoráveis como:” I was an experimental girl for Christ sake!”(ver para entender)

“Do the right thing”

Quebradas todas as regras, foi escolhido um filme mais consensual para um público maior que até minha casa tinha vindo para assistir ao desafio entre o slb e o Estoril (Mantorras resolveu). “Do the right thing” é Spike Lee embrionário e tudo o que se espera do realizador nova-iorquino. Cada vez mais o meu Spike Lee joint favorito.

“Slacker”

Tive a honra de escolher o filme que encerraria o certame, mas a obra-prima indie foi exibida apenas até meio já que os ânimos eram poucos e a sonolência muita. Não queria deixar de gostar do filme ao vê-lo com um olho fechado. O consenso foi encerrar hostilidades.

No final, esboçaram-se podiums e conspirou-se acerca de qual teria sido o vencedor da palma de ouro. O companheiro arriscava “Yojimbo”, “Band of outsiders”... Eu não me pronunciei. Frisei o equilíbrio e a variedade, mas, no fundo no fundo, o meu coração estava em Roma.

Friday, April 22, 2005

Parabéns, Laura Palmer

Faz hoje anos a Sheryl Lee. E, já que não escrevo nada há dias, achei que seria de bom desejar-lhe aqui os meus parabéns. Lembro-me de ir dormir na sua companhia às quintas-feiras. Ela que até podia ter sido hospedeira (olhem bem para a moça), era a assombração que levava comigo para os lençois. Ora falava de trás para a frente ora aparecia a gesticular o gesto de quem cheira uma linha. Sempre misteriosa e fora do alcance masculino. Laura Palmer é uma partida que Lynch pregou a todo o macho que se acha dominante. A profundidade do sexo forte representará sempre maior incógnita. Grato por dias vividos nessa confusão.

Thursday, April 14, 2005

Não vás ao mar, Toino

Foi difícil ceder a “Mar adentro” por duas razões distintas: não ando com pachorra para dramas clínicos e tinha a sensação de que o filme espanhol me iria afectar pela sua temática. Surpreendentemente e muito por causa da brilhante interpretação de Javier Bardem, deixei-me levar com a maré e “Mar adentro” fez tremer os nervos do rosto.

O apelo Amenábar (substanciado por quem me levou até ao filme) e a ausência de Robin Williams cativaram-me ao ponto de partir para o filme sem reservas ou preconceitos, mas na certeza de que iria assistir a um “tearjerker”. A verdade é que “Mar adentro” convence nessa função.

Vi o filme sem legendas e, mesmo que não tenha “apanhado” alguns diálogos, nunca deixei de perceber o que se estava a passar. Ontem tinha paciência para ele. Hoje nem me está a apetecer escrever sobre o que vi. Wild mood swing.

Tuesday, April 12, 2005

Ninja vs. Ninja vs. Máfia vs. Loira mamalhuda vs. Bom senso

Na continuidade da vaga fétichista, lanço-me no post de hoje a um dos fetiches que mais cultivo e estimo: filmes de ninjas. Por força de uma infância a dieta Dudikoff e juventude perdida a consumir avidamente tudo o que era filme de ninjas em canais turcos com o saudoso Show TV, ainda hoje nutro uma imensa simpatia por aquela julgo ser uma das áreas mais férteis do cinema “camp”. “Revenge of the Ninja” (1983) tem os anos 80 tão chapados na testa que transformou o meu horário pós-laboral numa alegre trip nostálgica.

A intriga é tão básica como a de um jogo programado pela Ocean ou Gremlin - velhinhas casas de software para Spectrum -: um esquadrão de ninjas assassina a família de um ninja retirado, fazendo sobrar o filho para aqueles que viriam a ser os melhores momentos “buéréré” do filme (já lá vamos). O ninja pacifista refugia-se nos Estados Unidos, onde, sem fazer ideia do que lhe é oculto por uma máfia cliché, acaba a traficar estatuetas cheias de heroína numa galeria de arte que mais parece um stand da Abraço. Temos loiraça curvilínea e um grande casarão a publicitar a prosperidade que o país da liberdade sempre oferece aos 5 asiáticos que não acabam a trabalhar em mercearias e restaurantes. Tudo tão pouco credível como os assassínios de asiáticos que, à falta de budget, deixam miraculosamente de sangrar mesmo quando trespassados por uma espada tipo-John Holmes.

Muito mudou na América. “Revenge” foi lançado pela prestigiada Metro G. Meyer (e nem por isso deixa de ser mau como o horário nobre da TVI) e nele é possível encontrar uma inocente criancinha de 8 anos à tareia com arruaceiros do seu tamanho e a manejar objectos cortantes em jeito de ameaça perante a loura mamalhuda (tem direito a 200 palavras no máximo, estejam descansados). Que mau exemplo... Tivesse eu 8 anos quando vi este filme e a minha bisavó não teria chegado a temer a ameaça (?!?!) Y2K. Qual é a semelhança entre um padre e um realizador sem escrúpulos? Ambos não olham a idades.

Com isto dito, ainda há muito a acrescentar a esta pérola de latão trash. Há interpretações capazes de provocarem repúdio ao irmãos Baldwin (sem excepção), um padrinho a querer fazer passar-se por Joe Pesci , um Ninja mau com mais artimanhas que o Inspector Gadget (não, Matthew Broderick, ainda não estás perdoado) e um duelo final de cortar a respiração (ao ninja que morre, pois claro). “Revenge of the ninja” vingou-me a fome que tinha desde “Ninja Dragão”, mas aposto que jamais voltarei a vê-lo de uma ponta à outra. Sóbrio, pelo menos.

Sunday, April 10, 2005

Parabéns, Steven

Comemora hoje 54 anos um dos meus actores fétiche: o imcomparável Steven Seagal.

Estou certo de que o vai comemorar na companhia do Dalai Lama e rival Chuck Norris. Juntos vão planear um argumento em que, ao bom jeito budista, o personagem interpretado por Seagal será contratado pela Interpol para se deslocar até ao Nepal e exterminar todos os vendedores de pele de Anaconda, cujo comércio, desde que o Jon Voight, piscou o olho àquela boazona, passou a ser ilegal. O homem, que não muda de penteado há mais tempo q o Luís Represas, tratará de quebrar todos os ossos e algumas articulações aos bandidos e o tradicional domingueiro português terá razões para sorrir no caminho de regresso a casa. Afinal, Portugal ainda é dos poucos países comunitários em que os filmes de Seagal estreiam em sala em vez de serem directamente remetidos para video.

Que tenha um iluminado aniversário que lhe sirva de pretexto a procurar um novo agente.

Wednesday, April 06, 2005

“Rice sniffin’, bitch slappin’, yakuza, motherfucker”

“Branded to kill” (1967) irradia aquele tipo de magia que muitos procuram, mas poucos alcançam. Além de se situar anos à frente do seu tempo, o filme de Seijun Suzuki é pura arte sem ponta de pretensiosismo que lhe possa ser apontado. Trouxe até mim um delicioso festim de visual – intenso durante pelo menos meia-hora (a servir de ponte entre o real e o surreal) - com que eu só sonhava. Fogo ao rastilho e é ver como o exotismo nipónico enche os olhos.

A narrativa – as aventuras de um assassino a contrato - aparenta a simplicidade de um sketch d’”Os batanetes”, mas ramifica-se em focos de complexidade como fantasmas amorosos e um encadeamento labiríntico que une a vida sentimental e os momentos de carnificina do killer no.3 (sobriamente interpretado pelo actor de culto Joe Shishido). Temos assim um filme apoiado num formato que Lynch viria a explorar com excelência mais tarde. Formato esse que favorece o impacto e efeito em que vê, em detrimento de uma lógica que deixa de ser conservada à risca.

“Branded to kill” não cessa de ganhar pontos enquanto dá largas ao seu leque de golpes visuais, que passam pela sobreposição de desenhos e uma falta total de reservas quando toca a seleccionar o melhor ângulo para cada cena. Saltam a rodos as surpresas da cartola: corpos em chamas, uma das mais originais sequências de assassinatos que alguma vez vi em cinema, cenas de sexo filmadas com uma sensibilidade que faz delas peças de arte. Lá está, “Branded to kill” é arte extraída à fricção entre o trash e o arrojo. Quando essa chama diminui, o filme de yakuzas derrapa, sem nunca chegar ao despiste. Grande parte do seu encanto reside também na incógnita que resulta dessa caminhada pela corda bamba. E que caminha, meus amigos...

Monday, April 04, 2005

The killers (1964)

Já é tarde e não me vou adiantar muito em relação ao que vos trago.

Tal como prometido, fica aqui o meu parecer acerca da segunda versão de "The Killers". Tal como suspeitava, preferi o colorido de 64 ao preto-e-branco da primeira versão. Nas mãos de Don Siegel, o conto de Hemingway passa a ser um filme de golpada e o Lee Marvin (no meu pedestal de durões está ao lado de Charles Bronson e Robert Mitchum) o hit-man mais fodido que Hollywood já conheceu.

E os ingredientes voltam a estar lá todos: o diálogo-esgrima, a sucessão de traições e a sensação de que a ganância é a que sempre leva todos à morte. Mas este "The killers" abunda em momentos e curiosidades que fazem dele um dos primeiros conselhos sublinhados pelo Royale. Temos direito a uma empolgante corrida de carros, vários comprovativos de que Ronald Reagan era um péssimo actor (além de ter sido um péssimo presidente), Cassavetes em flor como intérprete e uma protagonista feminina que fez as minhas delícias, como não acontecia desde que vi a Natalie Portman com aquela cabeleira rosa em "Closer".

Não fosse o sono e teria muito mais a escrever sobre esta meia-preciosidade. Volto a ele se um dia repetir a dose. Agoro volto aos lençois, pois já o João Pestana me prometeu a Charlize Theron para os sonhos de hoje.