Thursday, March 31, 2005

Horrible, simply horrible.

“20 million miles to earth”(1957)

Mediante impossibilidade de inserir imagens (não percebo puto de html ou qq coisa q se pareça), continua o meu humilde blog a ter o aspecto cinzentão. Cancelada uma ida ao cinema para ver “Ray”, permanece-se por casa a escrever.

Chegou até mim, pelas mãos de um fiel de dealer de bom e mau cinema, este caramelo Penha de sabor a limão azedo. “20 million miles to earth” (1957) é sci-fi ranhoso e nem sequer apresenta suficientes credenciais “camp” (mau por falta de meios, se preferirem).

“20 million miles” não varia muito das centenas de filmes centrados em monstros (e este vem de Vénus): o bicho chega numa nave, começa por ser domado e acaba por escapar. Pelo caminho, há direito a pseudo-romance pouco plausível (nem sequer um xoxinho, porra!), muitos momentos arruinados pelas garras do grotesco extraterreste e um rumo narrativo que deixa de existir a meio da duração. Chegado o período de transição (período esse que o vosso escriba aproveitou p um soneca rapidinha), passa o filme a modo “Parte tudo! Racha tudo! Fode tudo!”. Argumento, lógica e qualquer interesse, inclusive.

Perante a pasmaceira generalizada, aguardo o amante de mau-gosto pelos momentos altos de matéria risível. São escassos: a luta entre o bicho (cruzamento entre godzilla e um king kong neurótico) e um elefante de zoológico, as imagens de arquivo inseridas a martelo e o espanto estampado no rosto de alguns aterrorizados. É certo que os efeitos “stop-motion” começam por fazer cócegas, mas, com o passar do tempo, tornam-se banais e apenas embaraçosos.

“20 million miles” é um fracasso enquanto “monster movie” lançado por um grande estúdio (Columbia) e de mínimo interesse para todos a que ele acorrem pelos seus aspectos negativos.

Sunday, March 27, 2005

Blue suit, bow tie

Os dias correm-me surpreendentemente bem e o cinema a isso ajuda. Vivo hoje o quinto de uma série de dia felizes, que nem o morninho “The Killers” (1946) conseguiu abalar.

“Os diários de Che Guevara”

Juntei-me ao núcleo de amizades que muito estimo para assistir ao filme que recentemente tinha sido prendado a um dos presentes. Depois de por duas vezes derrotado no Pro Evolution Soccer (por 2-1 e por 1-0), acreditava que o regresso de Walter Salles pudesse salvar a noite, e salvou.

“Os diários” consegue satisfazer os que por aqui procuram continuidade e inovação. Salles volta, sem dogmas ou clichés, a retratar uma América do Sul à procura do eternamente adiado rumo. Garcia Bernal é metade de um muito bem conseguido par de protagonistas, tal como já aconteceu num muito bem sucedido “E a tua mãe também”. A inovação chega pela mão de Salles numa maior incidência sobre o excelente trabalho de fotografia (pasmámos todos em conjunto), em detrimento da montagem metralhadora de “Cidade de Deus”. Por sua vez, Bernal liberta-se de vez da pele de estrela teenager, ambientando-se a um tenro Che Guevara com a maturidade de um actor que sabe exactamente como alcançar o transe de “character”. É credível, comovente e nem sequer precisa de gritar “Freedom”. Além disso, “Os diários de Che Guevara” conta com o grande gag do ano, até agora. O Royale aconselha.

“The Killers”(1946)

Escolhido para ritual cinéfilo de sábado à tarde, “The Killers” é um excelente série-b ou um desequilibrado série-a. Será, acima de quaisquer suspeitas, uma obra de cinema “noir” com tudo no sítio. “The kills. The thrills. The skills.”

Conta com um debutante Burt Lancaster e uma resplandecente Ava Gardner que fez com que pedaços de caju me fossem caindo da boca à medida que disparava aquelas balas de sedução verbal. Baseado num conto de Hemingway, “The Killers” é estruturalmente complexo. Exibe sem hesitações as suas virtuosidades de objecto à frente do seu tempo: diálogos subversivos, sensualidade implícita e um argumento pouco favorável à aceitação imediata por parte do grande público.

Talvez porque fui obrigado a interromper o visionamento por 3 ou 4 vezes, fico com a ideia que o filme de Robert Siodmak merece um futuro visionamento (muito mais atento, dessa vez). O Royale cá está para vos dar conta disso.

Saturday, March 19, 2005

69 e ½

“I am curious - Blue” é mais do mesmo. É complementar. Insuficiente, sem “Yellow”.

As personagens são as mesmas. As alegorias abundam. Mantém-se o tom de “trip” subconsciente pelos meandros da emancipação sexual. Desta vez, protagonista Lena (nas mãos de Lars Von Trier seria ouro) parte à descoberta do lesbianismo, pacifismo (o segundo dos filme é muito mais “hippie”) e de um passado ocultado pelos pais.

A política volta a marcar presença. Ninguém sai ileso. Entre outros slogan de revolta, há direito a um curioso:”Portugal fora de África” (quando em “Yellow” tinha sido”Salazar é companheiro de Franco”). Tudo isto é exposto nesta “sequela” de uma forma muito mais ligeira. Há até uma sequência tardia em que Lena passa de bicicleta por uma turba de manifestantes e reconhece já não se identificar muito com tudo aquilo. “I am curious” grita “Make love, not war” em grande parte dos seus “sketches”. Ainda que a penalidade seja acabar com sarna.

Sim, porque ambos os filmes são apenas isso: uma colagem de “sketches”, do documental ao microscópicamente emocional. Acredito que funcionem bem se vistos em conjunto. Montados num só e amputados de 45 minutos de propaganda política (muito substrato), e seria absoluto como documento de época. Assim, exige maior paciência.

Wednesday, March 16, 2005

"In Rio De Janeiro you can screw for free"

"I am curious - Yellow"(1967) é um panfleto esquerdista disfarçado de estudo sobre a descoberta da sexualidade e prosmiscuídade (a protagonista já vai no 23º aos 22 anos de idade), ou o inverso. É uma metade. Também existe "I am curious - Blue" (que ainda não vi, mas que aqui tenho para ver).

Este poderia ser o filme de propaganda realizado por Cicciolina, caso tivesse perdido anos a estudar o cinema do seus compatriota Pasolini, em vez de andar a mamar na quinta pata do cavalo. Em traços grossos, a primeira metade de "Yellow" aponta armas ao Franquismo e à passividade de cidadões comuns que vão respondendo como podem às questões da protagonista sobre - entre outras - a existência ou não de classes sociais na Suécia. Comenta quem dispõe de nulo conhecimento da causa, mas parece-me que grande parte do frenesim interventivo da primeira hora de filme está directamente relacionado com o desconforto que advém da menstruação. Em todo o caso, são quase 70 minutos de discurso "avermelhado" que incutirá alguma sonolência em quem não esteja familiarizado com o contexto político da época. Eu, pelo menos, não faço ideia do que se passava na Suécia de fim de 60.

A segunda metade de "Yellow" consegue ser muito mais interessante e pertinente no que a bom cinema diz respeito. Incluí as 3 ou 4 cenas de sexo que valeram ao filme a proibição em território norte-americano, onde, depois, vem a arrecadar grandes quantias nas bilheterias, muito à custa de todo o bruá que o envolvera. Fiquei descansados os mais púdicos. Apesar de vagamente gráficas, as sequências parecem obsoletas quando comparadas a qualquer coisa que hoje passe em horário nobre na estação que um dia pertenceu à Igreja.

É pela via do sexo que o realizador Vilgot Sjoman consegue levar o filme a bom porto, pois expõe num jogo de realidade / ficção, em rodagem / fora de rodagem (muito à frente, neste aspecto) a vertigem de quem mergulha de cabeça na idade adulta, sem ter abandonado por completo inseguranças como a obesidade e outras perturbações neuróticas. "Yellow" é muito mais que isso, mas aprofundar-me faria deste post uma tese.

Embora arrisque alguns bocejos, "Yellow" vale por documentar à flor-da-pele o sentimento vivido numa época de transição sexual, moral, política. Fica irremediavelmente associado à primeira dessas revoluções, mas qualquer filme cujos protagonistas surgissem a pinocar na "maior árvore da Europa" arriscava-se a isso.

Tuesday, March 15, 2005

Pernas para que te quero

Algures entre "O Comboio do dinheiro" e "Anaconda" (um dia, lá iremos), "Striptease" é presença habitual nos nossos quatro canais em aberto. Começou há pouco na RTP1 e não sou capaz de esconder algum carinho de quem comigo fala no MSN.

Qualquer filme que se deixe inundar por dúzias de pares de mamas logo aos 06 minutos passa a ser automaticamente à categoria de "exploitation". Este "Flashdance" soft-core não demora a demonstrar trunfos e antes dos 20 minutos já ficámos a conhecer o seu melhor: os lindos seios de Demi Moore. Tudo o resto é acessório e secundário.

Tudo o resto gira em torna de um drama familiar que acumula mais clichés que toda o espólio "Vila Faia". O potencial Kneelex de "Striptease" é tão reduzido que devem ser mais as dançarinas no filme que as mulheres deste mundo que se comoveram com a história da mãe plástica que esfrega o rabo no nariz de predadores famintos para pagar as contas da casa.

Por lá anda Burt Reynolds - em ante-câmara do rejuvenescimento "Boogie nights" - no papel de predador sexual chéché e Ving Rhames a morrer de saudades dos tempos em que era sodomizado por polícias em caves sado-maso.

Para evitar o tédio, é ter atenção ao vestuário - mais justo ou largo - que vai passando pelo corpo da protagonista Demi Moore. É por aí que a narrativa do filme progride.

No confronto directo, "Striptease" sai cilindrado pelo rival "Showgirls", que consegue ser ainda mais desprezível que um filme cujo maior trunfo cómico envolve iogurtes com baratas.

Saturday, March 12, 2005

Texas Chainsaw Massacre 2

São filmes como "Texas Chainsaw Massacre 2" que fundamentam a minha opinião face a sequelas: salvo raras excepções ("O Império Contra Ataca" é a excepção clássica), a merda é sempre a mesma. "Chainsaw 2", ainda que dirigido por Tobe Hooper (o pai do original), afunda-se no lodo da fantochada logo aos 7 minutos, altura em que um boneco de trapos serra a meio um carro onde viajavam dois arruceiros embriagados que, para bem da sanidade, tinham mesmo de morrer ali.
Depois disso, não melhora muito. Junta-se a espalhafatosa direcção de Hooper à miserável interpretação de Hopper, Dennis (num período negro da sua carreira), e o caldo está entornado. Desta vez, Leatherface está apaixonado e desenvolve uma obsessão psicótica pela protagonista do filme. Temos direito a ver a nossa aberração texana favorita numa sequência em que usa a moto-serra como instrumento sexual. Não se chega a perceber - por entre todo aquele monte de farrapos de carne humana - se Leatherface atinge o orgasmo ou não. É o ponto alto e o único digno de interesse.
Há decalque de sequências presentes no primeiro "Massacre" e o circo descamba numa toca-e-foge passado numa cave pilhada aos "Goonies" e termina com a maldição nas mãos da protagonista busto 46, que rodopia o instrumento da matança num passo de ballet macumbeiro - evidencia primária de que é ela agora a possuída pela maldição. Amaldiçoados 100 minutos perdidos com este berloque.

Friday, March 11, 2005

A insaciável paixão de Mel Gibson

Chegou-me hoje aos ouvidos que o Mel Gibson está a pensar adaptar o milagre de Fátima ao cinema. Eu adianto desde já os potenciais candidatos. O leitor ocupar-se-á de corresponder as estrelas aos protagonistas como bem entender.

Pastorinhos:

Macaulay Culkin (tendo em conta que está habituado a experiências extremas)

Thora Birch (a inserção de um par de óculos de massa podia ser o mais genial "product placement" do cinema religioso)

Corey Feldman (arriscar o seu "casting" e esperar bons resultados de bilheteira seria por si só um acto de enorme fé por parte do realizador)

Liza Minelli (com mais uns litros de Botox nas beiças ainda se afoitava com credibilidade ao papel de pastorinha)

Samuel L. Jackson (já tinha feito campanha para o papel com o emblemático:"I've been trying real haaaaaaaard to be shepherd")

Para aparição:

Michael Jackson (habituado às exigências dos efeitos especiais)

Hugh Grant (encontrá-lo num box-office simularia na perfeição "A Aparição")

O poltergeist de Charles Bronson (para não desiludir os que vinham à procura da mesma violência da "Paixão de Cristo")

Sophie Marceau (seria a melhor forma de Gibson recompensá-la pelo frete a que a sujeitou em "Braveheart")

Figurantes para a turba de incrédulos:

John Cleese

W. C. Fields

João César Monteiro

Paulo Portas (mas alguém o convence de alguma coisa?!)

Anatomia de uma cena descontextualizada

Descobri finalmente na Mula a famosa sequência do polémico fellatio que tanto alarido causou em torno de “Brown Bunny”. Após ter recebido dois fakes que exibiam uma senhora bem aparecida a sugá-lo ao som daquela música de Chris Isaak que é frequentemente associada a “Eyes wide shut”, eis que finalmente me deparo com “the real thing”: os quatro minutos que pontificam “Brown Bunny”.
Mesmo que visionada à parte do restante filme, a sequência do broche parece-me cada vez mais um beijo apaixonado, em vez do carnaval de pornografia que lhe apregoam. Uma segunda apreciação – após quase um ano a conviver com memórias, banda-sonora e textos relativos ao filme – revelou-se fortuita na forma como revelou uma série de aspectos que não captei à primeira. Dita a disposição hierárquica dos sexos que seja o praticante do acto oral o submisso. Gallo subverte essa convenção. É ele o submisso neste caso. Assombrado, desgosto, perdido no reviver do momento traumático em que se deparou com a sua Daisy à mercê dos caprichos sexuais do nebuloso grupo de homens que a fodeu naquela noite. Serão, no fundo, eles os vilões da história e, em contraponto, Bud Clay o herói romântico. Debruçada sobre a virilidade do protagonista, Daisy redime-se da promiscuidade. Clay exorciza na ejaculação os seus fantasmas, mas sempre na condição do mais frágil.
Daisy é um fastasma. Bud Clay é simplesmente Vincent Gallo, que já se tinha representado a si mesmo em “Bufallo 66”. Ambos evidenciam movimentos ao longo do filme: Clay mergulha numa trip emocional em forma de espiral, enquanto colhe flores (sempre insatisfatórias perante a sua apreciação masculina), enquanto Daisy gravita sem muito em que pensar no seu purgatório de drogas e dias a fio com pupilas dilatadas. Limita-se a ter de esperar pelo momento climático em que se penitenciará até ao momento em que Clay se estender nos lençóis, sereno e ciente de que, em espírito, apenas a ele Daisy será subserviente. Somente na luta pela dominância Gallo / Clay é misógino. As feministas e detractores não perdiam nada em rever estes 4 minutos.

The day after yesterday

O Royale com queijo já teve direito ao devido baptismo. A meio de um longo parágrafo que expunha as razões que me levaram à sua criação, pisei com o meu pé direito o cabo que liga o PC ao transformador e perdi as palavras no meio de todos os 0101010101010. Passo a simplificar as intenções deste Blog por tópicos:

- O mote é o cinema.

- Poupar-me a ter de dispender a dose de saliva necessária para colocar as minhas amizades mais próximas ao corrente do que tenho visto.

- Expôr ódios e paixões.

- Escrever de forma despreocupada. Não esperem grande eloquência e habituem-se aos erros e imprecisões nos nomes dos invocados (ainda mais porque estou sem corrector de PT no Word).

Tudo isto terá a ver com alguma insastifação perante o que vejo e leio actualmente. O melhor é passar a posts em vez de lenga-lengas como as que acabaste de ler.