Sunday, December 11, 2005

II Maratona Criterion

II Maratona Criterion

O Dezembro suplica por cinema caseiro. É aquele mês em que o serão ideal passa mesmo por “dinner and a movie”, ou “dinner and plenty of movies”. Pela segunda vez este ano, reuni companhia com o mesmo gosto pela cinefilia e tratei da poeira às jóias da Criterion. Apurei o sistema de sorteio (agora uso um software chamado Zlotto96) e lancei os filmes existentes em tômbola. A regra era ver tudo o que a convidada desconhecesse. Por razões mais ou menos óbvias, apenas “King of Kings” de Cecil B. DeMille foi rejeitado às 23 horas de sábado. Tudo o resto cumpriu com protocolo. Eis um sumário das ideias retidas.

Sábado

“Branded to Kill” de Seijun Suzuki

O Suzuki ainda representa um mistério para mim. Realizador japonês de série-b que sempre aposta no mesmo actor fetiche. A edição deste “Branded to Kill” até conta com um ensaio do grande John Zorn. Creio ter sido isso que me atraiu até ele. O véu mantém-se espesso ao segundo visionamento. Trata-se basicamente de uma história de assassinos contratados contada ao jeito da montanha-russa. Tem uma fase intermédia visualmente muito forte e a mulher do protagonista parece-me cada vez mais lunática, assim como aquela narrativa que deixa de o ser de uma maneira que Lynch havia de explorar vezes sem conta. Nota: procurar conhecer melhor este Suzuki para confirmar.

“Carnival of Souls”

“Carnival of Souls” é aquele clássico maldito que se vê quase como um vídeo-clip de dimensões anormais. O próprio filme traduz a anormalidade do tratamento hostil do sexo masculino sobre o feminino (explorar isso agora é retirar-lhe metade do gozo). “Carnival of Souls” continua a ganhar terreno na minha apreciação e converteu a companheira A. em mais uma aderente ao culto.

“Slacker”

Com a chegada de um membro de júri adicional, “Slacker” era o prato principal da noite de sábado e estava sujeito a três julgamentos. “Slacker” tem conteúdo para suportar quantos forem necessário. Parece-me cada vez mais um convite à individualidade, à auto-suficiência de um meio cultural fechado. Agradou a todos e conquistou-me de vez à terceira (à primeira fui apanhado desprevenido). É absolutamente seminal quanto à estética “indie”.

“The Life Aquatic”

Exibido a horas tardias, “The Life Aquatic” foi recebido com as primeiras vaias de pestana (a convidada de honra pregou olhou umas 9 vezes, a rotineira manteve-se firme no visionamento desperto, eu vacilei mas não fui ao fundo). Ainda assim, continua a ser a mesma arca de esplendor visual e um filme de excelentes gags a médio / longo prazo (ler post anterior para mais informações).

Domingo

“The Honeymoon Killers”

“T.H.K.” não é o melhor filme para acompanhar com cereais de frutos silvestres logo pelo pequeno almoço. A sua dupla de protagonistas é absolutamente odiável e temível. O filme funciona (e espaços há em que se arrasta) quando as vítimas se tornam mais temível que a dupla de vilões. Aí ganha imensa graça e o tempo passa a voar. É capaz de ter sido dos primeiros serial road movies. Tem aquela pinta de culto que só abafa os objectos genuínos.

“Le Cercle Rouge”

“Le Cercle Rouge” é noir clássico. Dura 140 minutos que voam às costas do seu ritmo triangularmente imparável. Alain Delon tem a pinta que Colin Farrell gostava de ter em troca de fretes feitos a Oliver Stone. Tem uma sequência de roubo de jóias que mora no meu pódio destinado a essas. Fechou a chave de rubi a II maratona.

Friday, October 21, 2005

Gus Van Santa paciência para ver "Last Days" até ao fim (vai morrer longe, anão iconoclasta

No Royale, Gus Van Sant vai de herói a vilão no espaço de um post.

Vivia na corda-bamba do cepticismo desde que tinha perdido o tempo mais inútil da minha vida com o "Psycho" e o "Even cowgirls get the blues". Eram os pesos negativos de uma balança que tinha contraponto na excelência de "My Own Private Idaho" e "Elephant" (dois marcos do cinema independente e mantenho com o primeiro uma relação que me leva a comover até quando vejo os extras). O "Bom Rebelde" seria sempre o Luke Skywalker na equação, o equilibrio. Os destabilizadores seriam insignificâncias que nem sequer vi. Certo. Vamos a isto. Hoje é decisivo. Amor ou ódio. Conversão ou total rejeição. Bem... "Last Days" pertubou-me tanto como "Irreversível", mas pelas piores razões. É um daqueles objectos absolutamente inenarráveis que só tornam Gus Van Sant numa figura ainda mais odiável, tal é a leviendade com que arruina por completo coisas sagradas.
Sim, porque colocar Norman Bates a masturbar-se enquanto espreitava o rabo de Anne Heche (quando isso não acontecia no original de Hitchcock) já era daquelas coisas que me tirava o sono. Fazer da figura que praticamente mudou o rumo musical da década de 90 uma caricatura comparável ao Beavis (após demasiado consumo de açucar) é simplesmente uma ofensa de quem se dá a estes luxos só porque o pode. sim, Gus Van Sant filma por meia dúzia de tostões. É "hip" e tem amigos que o acompanham como mecenas. Kim Gordon surge num papel pior que alguns discos da série SYR. GVS é a partir de hoje uma das pessoas mais perigosas no mundo, tal é a facilidade com que pode remexer uma entidade sagrada e servi-la em menu indie imersa em tiques descabidos e um disfarce que tudo facilita. Gus Van Sant é arty, reúne colaboradores brilhantes no que toca a fazer cinema (sim, Last Days é excelente na fotografia e detalhes técnicos) e tem aquela pinta de iluminado. Last Days é bom cinema, mas um objecto incompreensível no seu motivo.
Agora que Kurt Cobain e Hitchcock já deram voltas no caixão, porque não fazer de Rosebud um vibrador, de Joana D'Arc uma prostituta psicótica e de Carlos Focauld um mercenário toxicodependente num biopic fantasiosamente dado a delirios gay? Sim, Gus, aproveita as cinzas aos Alice In Chains, Elliott Smith, Jeff Buckley. Mete-os a todos a andar aos circulos nessa américa das amarguras boémias que tanto focas. Desde que tenhas alguém competente e um lobby indie a apoiar-te, isso há-de correr às mil maravilhas.

Wednesday, October 05, 2005

My Own Private Right to be amusing

Em boa companhia finalmente descobri porque o "My Own Private Idaho" é tão eficiente enquanto filme gay. Existe uma cena de sexo (filmadas em imagens petrificadas) em que Keanu Reeves surge nu ao lado de quem contracena com ele. No meio de todas aquelas formas redondas fiquei sem saber a quem pertencia o melhor rabo. Creio que os dois eram bem apreciáveis. O método Gus Van Sant resulta.

Além disso, não há ninguém que filme nuvens como ele. "My Own Private Idaho" tem sequências inesquecíveis no que a nuvens diz respeito. Valia a pena compilar as sequência do céu a todos os seus filmes e reunir isso num video dos Sigur Ros ou Cocteau Twins. No meu funeral quero esse video a passar em loop.

Na verdade, sou tão estupidamente emotivo em relação a "My Own Private Idaho" que dei por mim a ficar sensibilizado com alguns dos seus complementos (os que constam do disco 2 da sua edição Criterion). Qualquer dia dou por mim a chorar baba e ranho nas trailers de filmes do Lasse Halstrom. Levei-me a andar de carrinhos de choque no dia em que isso acontecer, por favor.

Wednesday, September 14, 2005

The Astronaut's Wife

NAN

Men are like parking spaces: all the good ones are taken, and the available ones are handicapped.

Wednesday, August 10, 2005

Vai sonhando

Em vez da tradicional avalanche de disparates, opto neste post por confrontar dois pontos de vista em relação a "Os Sonhadores" de Bertolucci.

O de alguém bem mais entendido sobre a obra de Bertolluci, mas céptico relativamente às maravilhas da Criterion Collection:

Os Sonhadores será sempre um filme-fetiche, realizado por um homem que é para mim o cineasta (mal compreendido) da luxúria, Bernardo Bertolucci. Não esqueço a admirável recuperação do Acossado do Godard, no pregão "New York Herald Tribune". Ou, ainda Godard, a tentativa de bater a façanha do Louvre de Bande à Part. Ou mesmo o despique verbal entre Chaplin e Keaton, ou entre Clapton e Hendrix - fico-me sempre pelos segundos. Os diálogos contrastam, às vezes, com a cenografia "gratuita", é verdade. Mas são perturbantes as navalhadas no Maio de 68 e na guerra do Vietname, ou como uma declaração anti-guerra é um poema. Sobretudo porque acredito que muita gente viveu assim esses episódios históricos.

É um filme improvável. Veja-se as cenas da tentativa de suicídio ( Rosetta, dos irmãos belgas Dardenne, é contemporâneo deste filme e isso percebe-se bem nesta passagem) e da rua a entrar-lhes pela janela - já que eles se estavam nas tintas para a revolução. É quase impossível este filme, de tão narcísico (como disseste (em debate verbal havido anteriormente)), como era quase impossível O Último Tango em Paris . Mas Bertolucci filmou ambos. É cinema que se olha até à náusea, na ânsia da auto-referencialidade a roçar o pueril. Mas um cinema apaixonante e apaixonado, nem que seja por si. Os Sonhadores é assim. Não é assim também Tarnation , de Jonathan Caouette? Mas concedo, por fim, que, por ter tanta sacarose, acaba por fazer mal aos dentes. É que Bertolucci nunca estudou até ao fim a lição dos grandes, não deixando por isso de ser um deles.

A minha resposta:

Posso adiantar que eu concordo com quase tudo o que referes. Eu não conheço assim tão bem o Bertolucci p admirar essa auto-referencialidade. Mas se for por aí todas as sagas são grandes filmes. Aquelas colagens e referências à nova vaga e a outros tantos clássicos são pura sedução de cinéfilos. Ou estás dentro ou estás fora. Tu estás dentro, eu estou fora. Eu disse que "pode até" ser narcísista e não malhei nisso. O filme tem um início e fim extremamente deficientes. Em 15 minutos o trio une-se. Em 5 minutos o trio desfaz-se. Já o "Tango" também jogava com a intimidade súbita, pelo que sei e pouco me lembro. Este não me papa talvez porque é gráfico quando nem sequer precisa de o ser. Parece-me ser um filme que acena com demasiadas bandeiras e depois não tem muito para dar.

Além disso, o trio de actores revela-se aquém das suas capacidades. Michael Pitt mais parece um Leonardo Di Caprio dos anos pré-Titanic.(spoilers ahead) E alguém acredita que a protagonista era virgem?

Thursday, July 28, 2005

Royale com Queijo - Blockbuster Report

Batman Bengala

Estou magoado, Chritopher Nolan. Filmas o melhor thriller desde "Seven" e convertes-te agora ao peso do ouro de um franchising que tinha morrido no momento em que Schwarzie deixou cair a sua primeira lágrima de gelo.
"Batman Begins" não é sequer digno de ser o primeiro capítulo de uma saga referente a Batman. Assistir ao Batman da década de 60 é certamente mais divertido. Este primeiro capítulo de um nova saga encontra Scarecrow a libertar gases alucinogénicos por Gotham. Os pobres habitantes ficam com medo de tudo o que vêm à frente e nós com medo de esta saga se estender a mais 2 ou 3 "no-brainers" e de um mais que provável "reprise" de Michael Caine no lugar de mordomo Alfred. Se ele se atrever a dizer "Goodnight, you princes of Gotham. You kings of New England. " juro que peço o meu dinheiro de volta.


A vida é bela da independência

Exactamente. "Guerra dos Mundos" pareceu-me um cruzamento entre "A vida é bela" - comédia familiar assente sobre o Holocausto - e "Dia da Independência" - um holocausto patriótico de comédia. Para já, parece-me o pior Spielberg desde "Império do Sol" (ainda não vi "Apanha-me se puderes" e "Amistad" era pelo menos uma excelente aula de história). Sim, pior que o Kapra-Spielberg do ameno "Terminal". "Guerra dos mundos" comete o pecado que surgia diluído entre os efeitos visuais de "Jurassic Park" (um marco para a altura, hoje parece nitidamente datado): é inadmissivelmente "camp" de acordo com a bitola do judeu mais poderoso da indústria de Hollywood.
E isto porque "camp" nem sempre se refere apenas a cenários de cartolina e guarda-roupa comprado nos saldos. Em "Guerra dos Mundos" o "camp" fareja-se às sequências empilhadas em que os protagonistas fogem à ameaça alienigena (a pé, de carro, a nadar), à 15º vez que o plano os encontra de baixo para cima a pasmarem perantes as dimensões dos tripods, a toda uma série de clichés encabeçadas pelo personagem ermita de um Tim Robbins em modo ganha-pão. Pior só mesmo a lamechice de uma versão "a cappella" de "Little deuce coup" cantada por um Tom Cruise em lágrimas cultivadas com a direcção de Paul Thomas Anderson.
"Guerra dos Mundos" faz pasmar e entretém, mas por dentro apodrece aos poucos. Repare-se na sequência do "toca-e-foge" entre aliens e trio sobrevivente na cave. Já ninguém papa isso. Dêem-me os aranhiços de "Relatório Minoritário"!
Os yankees voltam a ganhar à lei da bala, mas o inimigo ainda resiste. Há uma altura em que com três granadas - arremesadas no goto do tripod - Tom Cruise racha um máquina ao meio. Teria sido mais fácil dar-lhe de comer os Guns n' Roses e esperar que o bicho morresse entoxicado.

Tuesday, June 14, 2005

Não pesco nada disto

Wes Anderson é autor feito. Quem ainda não acreditava que “Royal Tenenbaums” era uma obra-prima a curto prazo, tem em “The life aquatic with Steve Zissou” resposta à altura. Os dois são tão semelhantes e, ao mesmo tempo, tão distintos que compará-los será, por enquanto, um exercício de alto risco. A hipótese de “The life aquatic” ser a segunda parte de uma trilogia não é de todo descartável (sim, porque “Rushmore” era ligeiramente diferente do que se lhe seguiu) .

Os filmes de Wes Anderson comprovam a ideia da paixão como algo irracional. Dou por mim fascinado por tudo isto sem saber ao certo porquê. O bom humor flúi por dentro e raras vezes explode numa gargalhada. Tudo em “The Life Aquatic” é um imenso gag. O ataque visual – legendas, filmes dentro do filme, a arquitectura Monty Phyton – começa por desnortear e depois vai invertendo o seu papel e, aos poucos, acrescentando peças ao puzzle do gag indescritível. Tudo no universo Anderson tem imensa graça. Actualmente, é ele o melhor praticante da arte de fazer espalhafato de uma forma subtil. Por isso, “The life aquatic” (tal como “Royal Tenenbaums”) é uma bomba-relógio à espera de surtir o seu real impacto pela altura em que todas as subtilezas do seu non-sense são assimiladas.

Os detractores de Wes Anderson acusam-no de atirar a matéria pastosa à superfície e esperar que pegue. E muitas vezes não pega. Sim, Anderson nem sempre encontra forma de justificar as pontas que deixa soltas. Será tão improvável alguém apreciar esse desequilíbrio? Anderson filma espelhos humorísticos para quem não se leva muito a sério. Quando “Tenenbaums” deitava por terra qualquer seriedade (excepto os laços de sangue) associada à família como instituição, “The Life aquatic” equaciona a parentalidade através do delírio total moldado a partir de memórias de documentários protagonizados por Costeau e filmes de aventuras subaquáticas.

Além disso, não existe entre os autores no activo quem escolha melhor banda-sonora para os seus filmes. Sim, porque usar um clássico dos Stooges e logo depois soltar um trocadilho certeiro não é para todos. Os Sigur Rós por lá andam em momento determinante. Ah! E Bill Murray é o actor de mau feitio mais cool trajando um gorro vermelho. “The Life Aquatic” faz de 2005 um ano de boa pesca.